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COMUNICAR E ENVOLVER - Oficina de comunicação livre e global

As notícias. os factos e as opiniões, nacionais e internacionais, nas mais diversas áreas, com gestão de António Veríssimo. Para se sentir sempre informado.

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As notícias. os factos e as opiniões, nacionais e internacionais, nas mais diversas áreas, com gestão de António Veríssimo. Para se sentir sempre informado.

31
Mai18

Crime de saúde pública em Cantanhede e Mira, diz nota do PNR

antónio veríssimo

Segundo o PNR, em nota chegada até nós,  "um verdadeiro crime de saúde pública e um atentado ao ambiente está a ser cometido pelo Grupo Águas de Portugal, pela sua concessionária Águas do Centro Litoral, com o conhecimento e conivência dos executivos municipais de Cantanhede e Mira, Presidentes de Junta de Freguesia dos respectivos municípios, Presidência da República, Assembleia da República, Governo, Ministério Público e Guarda Nacional Republicana".

Com efeito, continuam, "a ETAR das Cochadas, que procede ao tratamento das águas residuais dos Municípios de Cantanhede e de Mira, essa propriedade das Águas do Centro Litoral, procede a descargas diárias de águas residuais para a Vala Real, contaminando não só as culturas dos terrenos agrícolas próximo, bem como as veias freáticas, que geram a produção de melgas e mosquitos, cujas picadas já provocaram doenças, existindo já muitas pessoas com problemas de pele causados pelas águas residuais e pelos banhos que tomaram na Barrinha de Mira. Isto para não falar nos casos de pessoas que já comeram peixes contaminados com as águas residuais".

"O caso é particularmente grave, sendo o mesmo do conhecimento da Presidência da República, da Assembleia da República, do Governo e do próprio Ministério Público que, dentro das suas competências legais, nada têm feito para pôr termo a este crime ambiental e de saúde pública", lê-se no comunicado.

Uma delegação do PNR Coimbra, composta por Miguel Costa Marques, José Vilela e Jorge Cardoso, deslocou-se no passado dia 20 de Maio à Vala Real, a fim de constatar esta realidade. A visita guiada ao local foi efectuada por  Rogério Guímaro, um dos muitos agricultores da zona, particularmente afectado por este crime ambiental, tendo dado importantes explicações e detalhes sobre o que se está a passar na Vala Real e na ETAR das Cochadas, e do "alheamento que este crime ambiental tem merecido, quer por parte do poder político, quer por parte do poder judicial".

Termina a nota dizendo que "o PNR preocupa-se com o ambiente, com a saúde pública e com o bem-estar das populações. E irá fazer tudo o que estiver ao seu alcance para pôr termo a este verdadeiro crime ambiental e de saúde pública"

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 Este crime ambiental e os seus locais mais flagrantes foram, até agora, visitados não só pelo PNR, mas também pelo Bloco de Esquerda, pelo PCP e pelos Verdes.

AV

29
Mai18

ANTÓNIO LOJA NEVES DEIXOU-NOS

antónio veríssimo

É com imenso pesar que o LIVRE recebe a notícia do falecimento de um dos seus membros fundadores, António Loja Neves, destacada figura da vida cultural e política portuguesa. 

Ativista, jornalista, ator, realizador, crítico, cronista, poeta, madeirense, lisboeta e cidadão do mundo, António Loja Neves nasceu no Funchal, em 1953. A sua paixão e alegria de viver levaram-no a assumir diferentes papéis durante a vida. Foi em Cabo Verde, durante a sua juventude, que despertou para a política envolvendo-se na luta anticolonial e antirracista, onde também desenvolveu uma enorme paixão pela música e literatura africana, em particular a cabo-verdiana, que o acompanhou durante toda a vida. O gosto pela agitação política e cultural continuou depois do 25 de Abril, procurando sempre não separar estes dois mundos, vendo no cinema uma forma de pôr as pessoas a discutir o mundo que as rodeia.

Foi colunista e jornalista no Expresso; realizou o documentário “O Silêncio” em 1998 sobre um episódio trágico de violência fascista ocorrido em 1946; foi ator nos filmes Os Canibais (1988) e O Processo do Rei (1990); Foi co-fundador da Federação Portuguesa de Cineclubes e da AporDoc, e co-organizador do PANORAMA, dos Encontros Internacionais de Cinema Documental; comissariou festivais e mostras de filmes lusófonos; ganhou o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores em 2002. Em maio de 2018, lançou o livro “Arménia – Povo e Identidade” em coautoria com Margarida Neves Pereira.

António Loja Neves era, sobretudo, um ativista para quem a política e a cultura eram indissociáveis, procurando sempre instigar ideias em virtude da sua grande paixão pelo debate e pela vida. A sua morte prematura deixa o país, do continente às ilhas, com menos uma voz crítica e irreverente.

O LIVRE expressa as suas mais sentidas condolências à família de António Loja Neves e conta providenciar, em breve, detalhes sobre a sessão pública de homenagem a um estimado camarada cuja falta será muito sentida.

 

Haverá amanhã, 29 de maio, uma cerimónia de amizade e homenagem ao António Loja Neves, com um pouco de música cabo-verdiana, como era seu desejo, no espaço do Teatro Praga, na Rua das Gaivotas n° 6, em Lisboa, das 19h00 às 21h30.

LIVRE

28
Mai18

Pelo direito a escolher morrer com dignidade, defende o LIVRE

antónio veríssimo

No dia 29 de maio será debatida na Assembleia da República a despenalização da eutanásia em Portugal.

Eutanásia tem origem no grego euthanasía, a boa morte, sem dor nem sofrimento. Hoje, a palavra usa-se para denominar a morte assistida ou o suicídio assistido de uma pessoa que, padecendo de uma doença incurável, degenerativa, que a levará à morte depois de um período de grande sofrimento e perda de qualidade de vida, recebe apoio de um profissional de saúde para pôr fim à sua vida através da administração ou da facilitação da autoadministração de um fármaco letal.
Em países como Países Baixos, Bélgica, Suíça e Luxemburgo, a eutanásia é permitida. Em Portugal é ilegal e configura crime, punível até 3 anos de prisão.
O LIVRE considera que a capacidade de decidir em consciência e liberdade sobre a própria vida é um direito fundamental e intransmissível, que o Estado tem o dever de respeitar particularmente, tratando-se de uma escolha individual pelo fim do sofrimento pessoal. Por esta razão entendemos que não sendo a eutanásia, quer ativa quer passiva, uma opção do ponto de vista médico, não se pode retirar ao indivíduo em sofrimento a possibilidade de decidir de forma informada sobre como pretende dispor da sua vida.

Para esta decisão informada, cabe ao Estado assegurar que, nas situações de sofrimento extremo físico e/ou psíquico, são prestados todos os cuidados possíveis do ponto de vista biológico, psicológico e social, garantindo um acompanhamento adequado e humano, incluindo a prestação de cuidados paliativos, nas situações de doença terminal e de fim de vida.

O LIVRE considera assim que a eutanásia deverá ser legislada, para que determine a livre opção do indivíduo, respeitando os direitos e a liberdade de consciência de terceiros, nomeadamente dos seus familiares e dos profissionais de saúde. Esse enquadramento deverá garantir a disponibilização de apoio médico e psicológico especializados, para que sejam obrigatoriamente abordados do ponto de vista clínico todos os aspetos concorrentes para a decisão informada e consciente do paciente.

Porque consideramos que o direito a escolher morrer com dignidade é essencial numa sociedade justa, plural e livre,

Porque a ciência ainda não dispõe de todos os recursos necessários para diminuir ou eliminar o sofrimento físico e psicológico extremos mantendo uma vida plena, e

Porque ninguém pode ser condenado ao sofrimento sem remissão nem esperança,

o LIVRE apela aos deputados e aos partidos representados na Assembleia da República que votem a favor da despenalização da eutanásia.

LIVRE

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28
Mai18

Projecto "Gândara Tour Sensations" apresentado: “Vamos aproveitar as sensações que a Gândara nos transmite”

antónio veríssimo

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O projecto “Gândara TourSensations” foi, ontem, apresentado, na Casa Museu, em Santo António de Vagos. O projecto, que viu a sua candidatura aprovada à Linha de Apoio à Sustentabilidade do Turismo de Portugal, tem como ambição estruturar uma rede de unidades de alojamento local ancorada nas Casas Gandaresas, integrando-a nas ofertas turísticas da região. Promovido pelas três autarquias do “coração” da Gândara – Vagos, Mira e Cantanhede -, o “Gândara TourSensations” é liderado pelo município vaguense e coordenado tecnicamente pela Universidade de Aveiro (UA), pretendendo aprofundar o conhecimento sobre a cultura gandaresa, mais especificamente sobre a Casa Gandaresa. Pretende-se, segundo os seus responsáveis, “criar a base para um processo sustentando de preservação e valorização destes activos, conferindo-lhes novas valências e funções, no âmbito particular das actividades turísticas”. O projecto, que começará a ser implementado no próximo mês de Setembro, deverá ser executado num prazo de dois anos. O seu valor total ronda os 287 mil euros, sendo financiado, em 80 por cento, pelo Turismo de Portugal.

Esta foi, segundo o Vereador Fernando Madeira disse à reportagem do Jornal Mira Online"a primeira pedra para a execução de um projeto que acontecerá ao longo de três anos".

A inventariação, a classificação, a criação de um roteiro, de uma marca, de um site e de uma app, são pedras basilares deste projeto que está a ser arquitetado há cinco anos (tempo este, que levou a espera do financiamento necessário do Turismo de Portugal).

Helena Teodósio, Raul Almeida e Silvério Regalado explicaram à reportagem que "os três municípios têm a preocupação de ainda poder salvar a casa gandaresa". Através do suporte da Universidade de Aveiro "está a ser feito todo um levantamento da realidade e, assim, partiremos ao encontro da preservação e a consequente readaptação à estas casas que têm uma especificidade bastante própria".

Ainda segundo o raciocínio autárquico, "mais vale preservar e conservar estas casas, que deixá-las cair aos bocados... acontecerão financiamentos para que os proprietários possam preservá-las... e, com elas, toda uma longa tradição regional" . Desta forma, "o turismo aposta como promotor da região, criam-se rotas e potencialidades, acarretando benefícios em muitas vertentes, tais como a gastronomia, os vinhos, a tradição de bem receber que são importantes "motores" da dinamização desta oferta a nível nacional e internacional. Em suma, este projeto tem tudo para oferecer um produto turístico de excelência".

Dina Ramos e Carlos Costa, pela Universidade de Aveiro afirmaram, na apresentação, que este projeto nasceu de uma questão quase absurda: "o porquê das pessoas virem às nossas praias e acabarem por não visitar as localidades dos nossos Concelhos". E, desta simples questão, veio a necessidade de, nos dias que correm, dar-se "novas funções à casa gandaresa, fazer-se uma aprofundada investigação científica, dialogar com agentes locais e a comunidade em geral, para além de ações de sensibilização, captação e formação"no sentido de que oGândara Tour Senstaions tenha, como resultado final, o êxito que todos dele esperam. Mas, ficou para o final, a nova meta (sim, este Projeto pode alargar horizontes...): a pergunta feita por Dina Ramos ficou no ar e todos, incluindo os Presidentes de Câmaras, concordaram: "Não podemos deixar de, mais para a frente, olharmos para os Palheiros... eles também fazem parte desta rica cultura gandaresa!".

 

 

DIÁRIO DE AVEIRO

MIRAONLINE

28
Mai18

AHRESP lança campanha para redução de plásticos na restauração e alojamento

antónio veríssimo

“Menos Plástico, Mais Ambiente”, a campanha ora lançada pela AHRESP e que conta com o apoio do Fundo Ambiental do Ministério do Ambiente tem como objectivo sensibilizar para a redução da utilização de artigos de plástico na restauração e hotelaria (Canal HORECA).
 Pretende-se deste modo que se alcance uma mudança de comportamento no sector conseguindo-se a preservação do meio ambiente.
A Campanha abrange todo o território nacional e inclui ações no terreno em várias cidades do país.”, refere a nota de imprensa

A campanha da AHRESP pretende consciencializar a comunidade local para a necessidade de diminuir os impactos ambientais da utilização do material descartável plástico e motivando, assim se espera, uma mudança de comportamentos do canal HORECA.

A produção global de plásticos aumentou 20 vezes desde 1969, atingindo 322 milhões de toneladas em 2015. São números que merecem mais do que uma reflexão, uma atitude proactiva no sentido de proteger o nosso planeta. Apesar de Portugal ter um bom desempenho no que se refere à taxa de reciclagem de embalagens de plástico - bem acima da meta de 22,5% - queremos ir mais além e tornar o sector da restauração e hotelaria numa referência a nível mundial”, afirma Ana Jacinto, Secretária-Geral da AHRESP.

A campanha “Menos Plástico, Mais Ambiente”, que decorre entre Maio e Outubro de 2018, “terá como base um movimento nacional, agregador, que irá sensibilizar empresários, consumidores, turistas, entidades institucionais e governamentais e órgãos de comunicação social. “

Conferência e pesagem do plástico recolhido encerram a campanha

Com esta campanha, a AHRESP irá dar continuidade ao trabalho iniciado com a criação do Guia de Boas Práticas Ambientais desenvolvido em 2011 e do Sistema Verdoreca, ambos pioneiros na

Europa. “Temos um forte historial na separação de todos os resíduos de embalagens usadas, garantindo o seu devido encaminhamento e contribuindo para o cumprimento das metas nacionais em termos de reciclagem”, lembra Ana Jacinto, Secretária-Geral da AHRESP.

E acrescenta:“É possível sensibilizar empresários, residentes, turistas nacionais e internacionais para esta temática, fomentar a reciclagem, promover a diminuição dos resíduos plásticos e incentivar o investimento e a inovação, através do aumento da procura de materiais recicláveis. Queremos dar um contributo importante no lançamento dos alicerces de uma nova economia para este material, uma economia circular que preserve o ambiente e ajude as empresas a tornaram-se mais competitivas”.

Este projecto da AHRESP enquadra-se nos 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, que compõem a Agenda 2030, “auxiliando à concretização de um dos grandes desafios do desenvolvimento do turismo sustentável, que é a resposta às necessidades económicas, sociais e ambientais das gerações presentes, sem comprometer as das gerações futuras.”

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ZITA FERREIRA BRAGA

HARDMÚSICA

28
Mai18

OPINIÃO: Uma vida digna, já agora

antónio veríssimo

Provavelmente, matar-me-ei. Ou, pelo menos, não descarto a possibilidade de decidir fazê-lo. Esta é uma decisão individual que não depende da crença dos outros. Ela é formada pela vida de cada um. Nunca tinha pensado muito nisso, até porque a morte era uma noite longínqua, até ter tropeçado em linhas, palavras, dias e sentimentos que me acordaram. 

Em 2008 matou-se o escritor Hugo Claus e na altura escrevi qualquer coisa como isto: não sabia que Hugo Claus tinha um filho de Sylvia Kristel. Conhecia apenas dois livros dele. São bons. Amargos como a vida mais doce. Quando li a notícia da sua morte no “Libération” - tinha Alzheimer e escolheu morrer num momento em que ainda sabia quem era - lembrei-me de uma passagem de um outro autor (Cioran): “Há noites em que o futuro é abolido, quando de todos os instantes só subsiste aquele que nós escolhemos para não ser mais.” Um homem decidiu não continuar a viver. Doente e diminuído, não queria que o seu corpo sobrevivesse a ele. Não escrevia. As palavras fugiam. Sem elas, o mundo deixava de ter sentido. Era um estranho. Num momento em que conseguia pensar, falou com o filho e com as mulheres que tinha amado sobre a vontade de morrer. Repetiu-a várias vezes, a um médico, para a decisão estar de acordo com a lei belga - há mortalhas e poderes que nos perseguem até ao fim mesmo. Cumpridos os devidos procedimentos legais, acabou. Segundo todas as religiões, morreu em pecado mortal. Deus demora a aceitar um novo artigo para o seu infinito catecismo: “Concedei-nos, Senhor, o favor e a força de acabar e a graça de nos apagarmos a tempo” (Cioran). Ámen.

Apesar dessa convicção pessoal, não deixo de refletir em relação a um mundo e uma sociedade em que se vão inscrevendo supostos direitos individuais enquanto se ignoram direitos coletivos. Numa prática ideológica que consagra a atomização do indivíduo e a sua responsabilização por todas as situações sociais, como se elas não decorressem de uma determinada sociedade. Será despenalizada a morte assistida, mas não são responsabilizados política e socialmente aqueles que destroem o Serviço Nacional de Saúde e antecipam, de facto, a morte de milhões de pessoas por falta de cuidados de saúde. Saúde, educação, habitação, emprego são direitos que deixaram de o ser. São considerados heranças arcaicas de uma sociedade não livre. Livre é o mercado. Liberalizar o mercado de emprego significa despedir livremente. A palavra “liberdade” transformou-se nas regras que garantem o poder dos mais fortes e que liquidam os direitos da maioria da população, que muitas vezes foram falsamente trocados por “direitos” individuais.

Gente cuja única coerência de vida, no meio da sua corrida para o liberalismo, é o seu anticomunismo resolveu caricaturar a posição do PCP sem a ler. No meu caso, podendo não concordar com as conclusões do documento do PCP sobre a morte assistida, não deixo de refletir sobre muitos dos aspetos que lá constam. E eles não deixam de fazer parte das minhas preocupações. Nomeadamente, a parte do documento do PCP que relembra que “num quadro em que o valor da vida humana surge relativizado com frequência em função de critérios de utilidade social, de interesses económicos, de responsabilidades e encargos familiares ou de gastos públicos, a legalização da provocação da morte antecipada acrescentaria uma nova dimensão de problemas. Desde logo, contribuiria para a consolidação das opções políticas e sociais que conduzem a essa desvalorização da vida humana e introduziria um relevante problema social resultante da pressão do encaminhamento para a morte antecipada de todos aqueles a quem a sociedade recusa a resposta e o apoio na sua situação de especial fragilidade ou necessidade. Além disso, a legalização dessa possibilidade limitaria ainda mais as condições para o Estado promover, no domínio da saúde mental, a luta contra o suicídio”, defende a direção do PCP. 

Conhecendo os cortes abruptos no Serviço Nacional de Saúde (SNS), a pressão existente para cortar tratamentos, reduzir estadas nos hospitais das pessoas que têm de recorrer a eles, a falta de investimentos em cuidados paliativos, não é impossível prever que este novo direito venha num embrulho venenoso em que o livre-arbítrio de cada um se transforme numa espécie de pressão para acabar com a vida dos mais frágeis e desprotegidos. Tudo isso disfarçado de uma escolha assética em que os números gerais disfarçam mortos concretos. Há uns anos, em pleno período agudo da troika, um ex-ministro da Economia do PS defendeu, numa conferência sobre dotar o SNS de normas empresariais, que os médicos deviam ter o seu salário indexado aos exames médicos que ajudavam a poupar. Um doente aparecia com uma suspeita de doença grave: em vez de prescrever uma TAC, o médico dava-lhe um placebo qualquer e embolsava uma percentagem do exame poupado. Os hospitais públicos com gestão empresarial foram denunciados por não aceitarem doentes pouco viáveis, como crianças com leucemia, para não aumentarem a taxa de ocupação permanente de camas e degradarem as suas estatísticas de sucesso. Como em tudo na vida do capitalismo, não há aqui uma violência subjetiva em que alguém decide matar alguém, mas há um conjunto de decisões economicistas que têm como consequência esperada diminuir determinados custos que vão resultar no aumento objetivo da morte de pessoas, sem que ninguém tenha carregado em nenhum botão. 

Temos uma ideologia que torna as pessoas descartáveis quando adoecem e envelhecem, em que os mecanismos comunitários sociais e de grupo de acompanhar os mais novos e, sobretudo, os mais velhos foram destruídos em prol de uma lógica de asilo, hospício e morte. 

O filósofo coreano Byung-Chul Han publicou em 2010 o seu livro “A Sociedade do Cansaço”, onde defende que na nossa sociedade há uma espécie de liquidação da alteridade. O filósofo associa, então, esse diagnóstico clínico do homem contemporâneo não somente a essa lógica da substituição das diferenças por semelhanças, mas também aos vínculos que esse processo tem com as exigências económicas neoliberais. Trata-se de um corolário lógico da coisificação e da alienação, denunciadas por Karl Marx, em que todas as pessoas passam a ser determinadas pelo critério do consumo. E o homem do séc. xxi torna-se cada vez mais explorador de si mesmo e dos outros homens, atendendo às coordenadas da sociedade do desempenho, que se desenvolve em total oposição aos valores humanistas. As depressões cada vez mais frequentes nos nossos ambientes de trabalho são resultado dessas decisões, dos avanços tecnológicos e das redes sociais que transformaram radicalmente nossas relações afetivas. “Vivemos numa sociedade livre determinada pelo lema ‘yes we can’. Mas esse empoderamento só cria um sentimento de liberdade e converte-se imediatamente em ‘ tu deves’. Acreditamos que somos livres, mas verdadeiramente e de uma forma voluntária estamos a ser explorados até ao colapso”, afirma o filósofo num documentário sobre a sua obra. 

Qualquer alteração que evite a distanásia (o prolongamento da vida a todo o custo sem ter em conta o sofrimento humano) e que abra portas a uma decisão madura e pensada que preserve a qualidade de vida é positiva. 

Mas o que não deixa de impressionar nesta sociedade é que será certamente mais fácil, com os Rui Rios desta vida e quejandos, aprovar uma resolução para uma morte digna que conseguir que este governo e os anteriores se batam por uma vida digna para quem vive em Portugal. Quando lemos as posições da União Europeia para impedirem mais investimentos no SNS, é isso que percebemos. E, sinceramente, não há morte digna para quem não teve direito a uma vida digna. 

 

Nuno Ramos de Almeida

Jornal I

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28
Mai18

Morte assistida: Respeito pela dignidade implica que respeitemos opções de cada um

antónio veríssimo
Catarina Martins espera que na terça-feira o Parlamento aprove na generalidade a despenalização da morte assistida, para posteriormente se encontrar, na discussão na especialidade, “a melhor solução técnica e jurídica” para a concretizar.

“A discussão sobre a morte assistida não começou agora nem acaba na terça-feira. Esta discussão e este debate enorme que o país tem feito já tem mais de dois anos e meio”, afirmou Catarina Martins em declarações aos jornalistas, à margem de uma visita às festas do Senhor de Matosinhos.

“Foi há dois anos e meio que foi criado um movimento cívico muito amplo pela despenalização da morte assistida e que diz algo tão simples como quando uma pessoa está perante um sofrimento intolerável e tem uma doença fatal, uma lesão definitiva, e pede ajuda a um médico, o médico possa dar essa ajuda sem ir preso”, acrescentou a coordenadora bloquista.

Segundo Catarina Martins, “o respeito pela dignidade implica que respeitemos as opções diferentes de cada um e de cada uma”, sendo que, “como o próprio presidente da República reconheceu, este é um dos temas que mais profundamente foi discutido na sociedade”.

“O que esperamos na terça-feira é que o Parlamento possa fazer o passo de aprovar na generalidade os vários projetos que estão em cima da mesa, e que já tiveram este período tão grande de debate, para depois podermos fazer na especialidade um melhor trabalho ainda”, frisou.

“O que é importante esta terça-feira é reconhecermos que as pessoas têm a liberdade de decidir no fim de vida e que depois se faça o melhor dos trabalhos de especialidade para se saber que a lei que sai é tecnicamente mais competente. É isso que é pedido agora aos deputados e deputadas”, reforçou a dirigente do Bloco de Esquerda.

De acordo com Catarina Martins, “o Bloco fez tudo para levar este debate a todo o país”.

“O João Semedo, que tem estado neste debate desde o início, como o José Manuel Pureza, que é agora deputado, fizeram debates em todo o país, em todos os distritos, amplamente participados. Pela nossa parte, fizemos, ao longo de dois anos e meio, um debate consequente, aprofundado, com gente que pensa de várias formas, com gente da esquerda e gente da direita, com gente que tantas visões tem da vida para encontrarmos esta solução”, assinalou.

A coordenadora bloquista referiu que “o Parlamento é agora chamado para dar este passo: respeitar a dignidade”.

“Não dizemos que escolha a pessoa tem de tomar, dizemos é que a escolha que a pessoa faz tem de ser respeitada. Não impomos nenhuma escolha, respeitamos as escolhas que um e cada uma fazem”, realçou.

“Este não é um problema de religião contra não religião, não é um problema de esquerda contra direita, não é dizer que há entendimentos na vida que são melhores que os outros. É dizermos que todos os entendimentos da vida são igualmente respeitáveis, e que cada um deve ter a liberdade para, no final da sua vida, decidir e ter o apoio que decidir ter com toda a dignidade”, rematou.

ESQUERDA

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28
Mai18

Concerto Hill's Union no auditório da Fundação José Saramago

antónio veríssimo

Mais de 100 anos passados sobre a sua morte, Joe Hill mantém-se como uma figura central do sindicalismo revolucionário, um agitador e organizador cujas palavras e canções lançaram as sementes para o aparecimento de artistas progressistas como Pete Seeger, Woody Guthrie, Bob Dylan, Malvina Reynolds ou Florence Reece.
 Retomar as canções de Joe Hill faz todo o sentido porque em quase todas as suas frases encontramos paralelo nos nossos dias.
 Mas este projecto é mais do que um mero tributo, é um ponto de partida para novas abordagens às canções de Hill, para novos temas, ligados à vida, ao nosso dia a dia, à nossa realidade. 

Bilhetes: 3,00 €, à venda na Fundação José Saramago - Casa dos Bicos
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Hill's Union:
Pedro Salvador - voz, guitarra e harmónica | Rui Galveias - guitarra, baixo |
Tiago Santos - guitarra, baixo e voz | Rui Alves - bateria

28
Mai18

OPINIÃO: Bardamerda para o populista

antónio veríssimo

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Durante o PREC e nos anos seguintes, qualquer discordância política, cultural, pessoal ou outra era resolvida com o derradeiro insulto: “fascista”. Ninguém se preocupava muito com o rigor mínimo na utilização do termo, quer fosse na sua definição ideológica mais estrita ou na sua caracterização política mais abrangente. Tudo o que não correspondesse às indiscutíveis verdades daquele tempo entravam nessa enorme gaveta onde cabiam milhões de fascistas.

No inicio deste século, um outro termo passou a definir tudo o que não se conforme com o discurso dominante: “populista”. Ninguém perde muito tempo com o que quer realmente a palavra dizer. Ela tanto pode caracterizar alguém que diz coisas facilmente populares, que proponha coisas que outros considerem impossível de fazer, que seja muito radical, que divida os conflitos entre elite e povo, que acredite na luta de classes, que seja contra a globalização ou contra o projeto europeu ou contra a imigração ou contra o capitalismo financeiro. Tudo cabe nesta enorme caldeirada conceptual que, em vez de ajudar ao debate, apenas o torna mais nebuloso. De tal forma que o termo tem sido usado, em quase todos os textos e declarações públicas de analistas e jornalistas, para caracterizar um dirigente desportivo.

A palavra “populismo” não é, nos Estados Unidos, depreciativa (também não o é a palavra “revolucionário”). E não tem de ser. Na América Latina o populismo foi um fortíssimo instrumento de integração da maioria popular no processo político e de combate ao privilégio, de que Getúlio Vargas foi um bom exemplo. Na realidade, o nojo pelo “populismo” corresponde, em muitos casos, a uma inconfessável repulsa por políticas populares. Como escreveu Francis Fukuyama, insuspeito da minha simpatia, “populismo é o termo que as elites usam para as políticas de que não gostam, mas que a gente comum apoia”.

Há diferentes populismos, mas todos eles alimentam (ou exibem) clivagens sociais profundas existentes na sociedade. O populismo de direita, representado por Le Pen, Trump ou o UKIP, contrapõe o povo à elite e procura as responsabilidades num terceiro grupo, quase sempre excluído: imigrantes, refugiados, minorias étnicas e religiosas, beneficiários de apoios sociais. O de esquerda, representado por pessoas como Bernie Sanders ou Mélanchon, contrapõe o povo às elites económicas, usando a eficaz fórmula “99% contra 1%”. Uns e outros ganharam força com o processo de globalização, seja pela intensificação dos ciclos migratórios seja pela intensificação dos fluxos financeiros e comerciais. Mas uns e outros são estruturalmente antagónicos. Seja como for, o seu discurso afirma a existência de uma fronteira que define um “nós” e um “eles”. Em sociedades profundamente desiguais, esse “nós” e esse “eles”, com uma fratura inultrapassável entre os dois, é fácil de explorar porque é absolutamente real.

Por fim, o populismo pode corresponder a lideranças caudilhistas que, dependentes do carisma do líder, dispensam todas as formas de intermediação política, empurrando as democracias para formas autoritárias de poder. Também a América Latina é pródiga neste tipo de fenómenos, à esquerda e à direita.

O que me irrita na utilização do termo “populista” para definir Bruno de Carvalho não é o bom-nome do presidente do Sporting, que não tem salvação possível. É o mesmo que me irritaria a utilização da expressão “fascista” para definir tudo aquilo que se afastava da norma em meados dos anos 70: é o abastardamento de conceitos políticos

Assumindo todas estas definições de populismo, e pondo de lado a informalidade com que se usam termos políticos para caracterizar pejorativamente tudo o que nos desagrada, chamar Bruno de Carvalho de “populista” ou não chega a ser uma crítica ou é um total absurdo. Bruno de Carvalho pretendeu representar um sentimento “popular” dos sócios contra as “elites” do clube? Pode dizer-se que sim e a improvável “luta de classes” no Sporting está traduzia na expressão “croquetes” e bem representada pela ideia peregrina de que uma carta de um “grupo de notáveis” pode sobrepor-se à vontade dos sócios, que desconhecemos neste momento qual seja. Se isso é “populismo”, seria uma coisa boa. Mas convenhamos que é preciso forçar bastante a nota para transportar de forma tão linear para um clube dinâmicas dos confrontos sociais e políticos. E mesmo que tal fizesse sentido, sabemos como Bruno de Carvalho acabou por não afrontar nenhum desses poderes, mantendo-se dependente da opacidade financeira de pessoas como José Maria Ricciardi e Álvaro Sobrinho, que o apoiaram. A essa capitulação ele chamou, na sua extraordinária (no pior sentido do termo) conferência de imprensa, de “hipocrisia”.

Se o populismo de Bruno de Carvalho resulta do facto dele alimentar uma clivagem entre “nós” e “eles”, então basta ficarem-se pelo óbvio: ele é presidente de um clube. Os clubes, como fenómenos tribais, vivem disso mesmo. Se usamos a expressão “clubismo” como uma critica a certas formas de comportamento político faz pouco sentido esperar que o “clubismo” propriamente dito manifeste, mesmo como metáfora da vida em sociedade, características opostas às que são da sua natureza. Na divisão tribal entre “nós” e “eles”, Bruno de Carvalho é tão populista como Pinto da Costa ou Luís Filipe Vieira. Lidera uma tribo que se assume como uma tribo que combate, esperemos que de forma limpa e seguindo regras éticas, outras tribos. É disso que vive o fenómeno do futebol. Se lhe começarmos a aplicar conceitos políticos acabamos a exigir-lhe uma racionalidade que não pode ter.

Por fim, se a questão é Bruno de Carvalho dispensar estruturas intermédias que sejam um contrapeso ao seu poder, também aí é igual aos presidentes dos outros grandes. Na realidade, mais por características do clube do que do presidente, Bruno de Carvalho até concentra em si menos poder do que Pinto da Costa ou Luís Filipe Vieira. No Sporting nunca deixou de existir oposição, no Benfica ela é irrelevante e no FC Porto inexistente. Em qualquer um dos três grandes há um sistema totalmente presidencialista, em que os líderes falam diretamente aos sócios e adeptos e as estruturas de controlo são quase decorativas.

O que me preocupa na utilização do termo “populista” para definir Bruno de Carvalho não é o bom-nome do presidente do Sporting, que esse não tem salvação possível. Acho que ele é muito menos – na racionalidade do seu comportamento – e muito mais – no dano que causa à instituição – do que isso. Preocupa-me a falta de rigor de pessoas que moldam a utilização da linguagem no espaço público à sua vontade circunstancial e a redução de todos os conceitos a meros insultos. O que me irrita na utilização da expressão “populista” a torto e a direito é o mesmo que me irritaria a utilização da expressão “fascista” para definir tudo aquilo que se afastava da norma em meados dos anos 70: é a estupidificação maniqueísta do discurso público e o abastardamento de conceitos políticos.

27
Mai18

Raul de Almeida: "Aguardamos uma reunião com o Ministro do Ambiente sobre as descargas realizadas pela Águas do Centro Litoral "

antónio veríssimo

O Secretário de Estado do Ambiente esteve em Mira na reunião da Asembleia Municipal que se realizou no dia 24 de maio no Mira Center. Segundo Raul de Almeida, em declarações ao Miraonline, esta visita “a inseriu-se no processo de agregação do Município de Mira, com os Municípios de Soure e Montemor, para a gestão conjunta do abastecimento de água e saneamento, matéria já amplamente discutida com todas as forças politicas em diversas reuniões.”

O autarca refere, ainda que teve oportunidade de falar previamente com o Secretario de Estado, para abordar o tema das descargas realizadas pelas Aguas do Centro Litoral. Dessa conversa resultou o agendamento de uma reunião, já há muito solicitada pelos municípios de Mira e Cantanhede ao Sr. Ministro do Ambiente.

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