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COMUNICAR E ENVOLVER

Uma oficina livre e global de comunicação, nas mais diversas áreas, gerida por António Veríssimo.

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10.04.18

"E AGORA, BRASIL?" a opinião de Rui Tavares no PÚBLICO

antónio veríssimo

É admissível achar que a governação de Lula operou uma transformação social do Brasil para muito melhor e que o Partido dos Trabalhadores, sob a liderança do mesmo Lula, pegou num sistema político que já era corrupto e não só não fez nada para o reformar como amplificou mesmo os vícios políticos do país, a começar pelo próprio “mensalão” com que comprou votos de congressistas — a exemplo do que tinha antes criticado veementemente com a presidência precedente do PSDB.

É admissível até, como já vi nas páginas do PÚBLICO, perceber os argumentos a favor da decisão do Supremo Tribunal Federal de manter a prisão após confirmação de uma sentença em segunda instância e perceber os argumentos de quem diz que a metodologia do processo contra Lula tem, a vários momentos, laivos indesmentíveis de perseguição política: vejam-se as escutas libertadas para a imprensa antes de validação judicial, com o intuito de influenciar a opinião pública. É certo que o Brasil está muito polarizado. Nós não temos de estar polarizados com ele. Custa-me a entender que haja gente tão obcecada com Lula que não tenha tempo para reconhecer que a forma como Sérgio Moro investiga, sentencia e vem para as redes sociais lançar foguetes é tudo menos típico de um juiz sério num estado de direito.

 

O ponto de viragem foi a vitória de Dilma Rousseff nas eleições de 2014. Desde que ela tomou posse começaram as manobras para a destituir sob qualquer pretexto — e o pretexto que foi encontrado não foi mais do que a utilização de um critério de ornçamentação comum a muitos governos no mundo, de que todos os seus adversários já se esqueceram e que nem eles sequer jamais levaram a sério. Mas esse foi o pecado original. Como no Macbeth de Shakespeare, a vontade de poder justifica que se cometa o primeiro crime político: todos os outros cadáveres servem para justificar o primeiro.

A partir do momento em que ficou claro que uma parte do sistema político brasileiro estava disposta a tudo para tirar Dilma do poder — em parte, relembre-se, para enterrarem e conterem a operação Lava-Jato —, ficou claro também que seria inadmissível para a mesma gente aceitar que o PT pudesse vir a recuperar o poder em eleições presidenciais. Lula na cadeia passou a ser uma necessidade, não por causa de um triplex que ele nunca ocupou nem de um processo que ainda não transitou em julgado, mas pela muito mais singela razão de que Lula poderia perfeitamente ganhar as próximas eleições.

Se a minha interpretação shakespeariana estiver correta, porém, as coisas não vão ficar por aqui. Imagine-se que Lula apoia um outro candidato e que a transferência de intenções de voto, como as sondagens indicam, permitem que esse candidato passe à segunda volta das eleições presidenciais e se ponha em posição de ganhar (talvez contra um fascista como Bolsonaro). Alguém imagina que os inimigos de Lula se vão deixar derrotar por um candidato do PT? Eu tenho dificuldade em imaginá-lo. E por isso não tenho dúvida que é a própria realização do ato eleitoral brasileiro que deve ser agora protegida dentro e fora do Brasil. A última vez que se suspendeu a democracia naquele país, ela demorou duas décadas a voltar.